No dia 29 de janeiro, após o debate no contexto da 23ª Mostra de Tiradentes, acompanhamos a equipe do longa Ontem havia coisas estranhas no céu pelas ruas molhadas da cidade histórica, em busca de algum restaurante que servisse nhoque …
Categoria: Coberturas de festivais
O cotidiano abduzido de “Ontem havia coisas estranhas no céu”
Há algo de profundamente ridículo e patético em uma filmagem de cinema. (Pedro Costa)¹ Um plano que condensa grande parte das tensões de Ontem havia coisas estranhas no céu (Bruno Risas, 2020) aparece no final do segundo terço do filme. …
“Os Escravos de Jó”, um filme de discursos ou Carta aos patriarcas
Aqui quem escreve é um “neto”. Escrevo depois de viver uma experiência constrangedora em uma sala de cinema e de conversar com colegas de minha geração sobre o ocorrido, todos perplexos. Pergunto-me o que o senhor Antônio Pitanga, homenageado pela …
O que se passou depois do naufrágio (ou sobre a melancolia de esquerda em “Seus Ossos e Seus Olhos”)
Uma das imagens a que Enzo Traverso remete para pensar o que seria uma “melancolia de esquerda” é a metáfora do naufrágio, utilizada por Hans Blumenberg em um famoso ensaio. Blumenberg parte da descrição de um naufrágio no segundo livro …
The rectum is (not) a grave (or the proctopornographic mystique in “The Blue Flower of Novalis”)
First of all: the asshole. This is how “The Blue Flower of Novalis” (“A Rosa Azul de Novalis”), by Gustavo Vinagre and Rodrigo Carneiro, begins: with a close-up of Marcelo Diorio’s ass performing slight spasms. The next shot reveals the …
Quando o corpo é um arquivo (ou notas sobre alguns curtas LGBT+ exibidos na 22ª Mostra de Tiradentes)
Quais seriam os pontos de contato entre arquivo e cinema? O arquivo, enquanto instituição, pode ser descrito como um espaço físico no qual certo entendimento coletivo de história se manifesta, legitimando a existência de culturas, práticas e povos. A escolha …
“Temporada” e as múltiplas possibilidades de uma visita
Como inventar o que se recorda partir da fragmentação do presente? Em Temporada (2018), de André Novais Oliveira, a protagonista Juliana (Grace Passô) sai para comprar um armário para colocar no barracão onde mora sozinha. No topa-tudo que visita, do …
O ânus (não) é um túmulo (ou a mística proctopornográfica em “A Rosa Azul de Novalis”)
Antes de mais nada: o cu. É assim que começa A Rosa Azul de Novalis, de Gustavo Vinagre e Rodrigo Carneiro: com um close-up do cu de Marcelo Diorio performando leves espasmos. O plano seguinte revela o protagonista em uma …
“Imo” e os caminhos de interpretação: um debate aberto
Fazer um filme é uma experiência intensa. Discutir o filme, por sua vez, é uma experiência imprevisível. Fico imensamente satisfeita pelo debate resultante do filme que dirigi e apresentei na última Mostra de Cinema de Tiradentes, Imo. Tal debate perpassou …
O imo, a imobilidade: repensando um cinema “feminino” a partir do filme de Bruna Schelb
Será que qualquer simbolismo nos serve politicamente? Será mesmo potente e questionador falar a partir de metáforas que pressupõem uma experiência de feminino universal? Mais que tudo, foram essas as questões que nos animaram a partir de Imo, longa de …
O atrack de Mademoiselle Leona
“Sou Ângela Carne e Osso, a ultra-poderosa inimiga número 1 dos homens.” (Ângela Carne e Osso)¹ “Até o próximo crime!” (Carmen Sandiego)² “Sou aliada de Saddam Hussein. Já matei mais de cem.” (Leona Vingativa) Leona Vingativa apresenta-se, em sua página …
Filmar o outro: entre o consenso e o conflito
O que pode ser uma conversa entre realizador e a pessoa filmada em um documentário? Em Filme para poeta Cego (Gustavo Vinagre, 2012), após um aviso de uma voz que o filme terá áudio descrição, o diretor aparece conversando com …
“Vivo olhando” – a contemporaneidade póstuma de Alair e Tio Luiz
A imagem do corpo masculino, jovem e belo quase que me sufocava. (Alair Gomes) Os curtas-metragens cariocas Inocentes (Douglas Soares, 2017) e Inconfissões (Ana Galizia, 2017), exibidos da 21ª Mostra de Cinema de Tiradentes, resgatam a obra fotográfica de dois artistas …
Antes de morrermos, o cinema ainda: sobre “Mamata” e “Impeachment”
Em um mundo distópico, o que pode o cinema? A necessidade e a urgência são argumentos apresentados para justificar a realização de vários filmes brasileiros recentes. O ímpeto de produzir filmes é acompanhado pela possibilidade de denúncia, o caráter indicial …
Além do vísivel: “O olho e o espírito” e “Imo”
“O olho realiza o prodígio de abrir à alma aquilo que não é alma, o bem-aventurado domínio das coisas, e seu deus, o sol”. O olho e o espírito – Merleau Ponty Uma cidade, uma paisagem e uma mulher estão prestes …
Notas sobre a paixão em “Madrigal para um poeta vivo”
Como o cinema se diferencia e se aproxima de outros regimes de imagem? O que é o cinematográfico e quais são os elementos de linguagem que o constroem? Como o encontro com um outro que amamos quando mediado pelo cinema …
Variações do político: sobre “Nada”, “Registro”, “O golpe em 50 cortes ou a corte em 50 golpes” e “Vaca profana”
O que há de político no cotidiano? Quais são as imagens que, juntas à vida diária, podem responder à densidade do que vivem as pessoas comuns e aos dilemas de pessoas que habitam lugares periféricos? O que pode o cinema …
Lado de dentro, lado de fora: Café com canela, a vida e a morte
Em uma das primeiras sequências de Café com canela (Ary Rosa e Glenda Nicácio, 2016), a câmera, em movimento panorâmico, mostra pés, punhos e partes do rosto de pessoas comuns. No contato com aqueles membros, não temos, a princípio, a …
A dificuldade do amor face ao progresso: História de Taipei
Balanço A pobreza do eu a opulência do mundo A opulência do eu a pobreza do mundo A pobreza de tudo a opulência de tudo A incerteza de tudo na certeza de nada. (Carlos Drummond de Andrade) Em História de …
“Vazio do lado de fora” e a impossibilidade do lugar qualquer
Em umas das cenas de Vazio do lado de fora (Eduardo Brandão Pinto, 2016), vemos um plano em que há o movimento das garras de um trator ao fundo, um senhora que sabemos que reza, um homem com o pé …