Autor: Laís Ferreira
Variações do político: sobre “Nada”, “Registro”, “O golpe em 50 cortes ou a corte em 50 golpes” e “Vaca profana”
O que há de político no cotidiano? Quais são as imagens que, juntas à vida diária, podem responder à densidade do que vivem as pessoas comuns e aos dilemas de pessoas que habitam lugares periféricos? O que pode o cinema …
Lado de dentro, lado de fora: Café com canela, a vida e a morte
Em uma das primeiras sequências de Café com canela (Ary Rosa e Glenda Nicácio, 2016), a câmera, em movimento panorâmico, mostra pés, punhos e partes do rosto de pessoas comuns. No contato com aqueles membros, não temos, a princípio, a …
A dificuldade do amor face ao progresso: História de Taipei
Balanço A pobreza do eu a opulência do mundo A opulência do eu a pobreza do mundo A pobreza de tudo a opulência de tudo A incerteza de tudo na certeza de nada. (Carlos Drummond de Andrade) Em História de …
“Vazio do lado de fora” e a impossibilidade do lugar qualquer
Em umas das cenas de Vazio do lado de fora (Eduardo Brandão Pinto, 2016), vemos um plano em que há o movimento das garras de um trator ao fundo, um senhora que sabemos que reza, um homem com o pé …
O cinema pode realmente salvar?
Em Na missão, com Kadu (Aiano Bemfica, Kadu Freitas e Pedro Maia de Brito, 2016), vemos o protagonista caminhando na Linha Verde, em Belo Horizonte, Minas Gerais. Ele anda com uma menina no colo, que o chama de tio. A menina …
“A vida e o cinema não podem ser separados” – entrevista com Anocha Suwichakornpong
A seguir, entrevista realizada com Anocha Suwichakornpong, homenageada pela mostra Foco do 6° Olhar de Cinema – Festival Internacional de Curitiba. Laís Ferreira: Em seus filmes, vemos, recorrentemente, cenas de trabalho no cotidiano. Em Estrangeiro, nós assistimos empregados em uma fábrica voltada para frutos …
Não nos afastemos muito: sobre “Espelho negro” e “Dao Khanong”
O cinema talvez seja um espelho passível de movimento, em que os encontros – com os outros, consigo – ainda se façam possíveis. Nesse caso, o tempo é a variância principal. No breve curta Espelho negro (Black Mirror, 2008), de Anocha Suwichakornpong, …
Uma imagem que se espelha: sobre “Anoitecer”, “Almoço” e “Como. Amor. Verdadeiro”
No início de Anoitecer (Nightfall, 2016), de Anocha Suwichakornpong, vemos uma mulher que encosta a superfície de sua mãos sobre um espelho. Passamos a ver a imagem de um corpo e a imagem de um reflexo: estão ambas enquadradas dentro …
A poeira das estrelas: o cotidiano em “Estrangeiro” e “História mundana”
No início de Estrangeiro (Pohn talay, 2012), de Anocha Suwichakornpong, vemos uma mulher imigrante trabalhando em uma fábrica com pescados. Enquanto trabalha, o grupo de operários conversa sobre uma série assistida na noite anterior. Uma das imigrantes, porém, parece irrequieta. …
“Lá” é um lugar imaginado
Possivelmente, a imagem de um lugar nunca será esse lugar. Nem a imagem do amor ou da ausência poderão ser esses sentimentos: os índices que empregamos apontam, guardam uma parte do que isso foi. No entanto, não são a própria …
Quantos afluentes desaguam num rio?
O que pode um rio no universo dos homens? O que significa para um rio nascer, ir em direção à foz, receber os afluentes? O percurso de um rio, a bacia hidrográfica a qual pertence, é um dos elementos responsáveis …
Nada mais extraordinário que o cotidiano
Em uma das primeiras sequências de Nyo vweta nafta (2017), de Ico Costa, vemos um casal abraçado, andando de moto por Moçambique. Enquanto transitam, o homem e a mulher conversam sobre o futuro, sobre o que é possível esperar dos dias …
Como (e onde) crescem os meninos-homens em “A família”
Em uma sequência de A família (La familia,2017)1, de Gustavo Rondón, vemos pai e filho no interior de um bar. Depois de um dia de trabalho e de uma tentativa frustrada de roubo de uma garrafa de bebida ao final …
A história que se monta: representações (e reverberações) da greve do ABC
Em uma sequência de ABC da greve (Leon Hirszman, 1990)1, vemos uma faixa erguida por alguns operários que estão reunidos para discutirem a pauta do movimento sindical e grevista. Esse material é estampado com uma figura de Jesus Cristo de um …
Deste lado do mundo, o profano é divino
Em uma das cenas de Com o terceiro olho na terra da profanação (2016), de Catu Rizo, vemos um plano fixo de duas escadas rolantes, no centro de Nilópolis. Enquanto pessoas transitam ali, ouvimos uma voz que anuncia psicoterapia, convocando a …
“Corpo delito” e a liberdade apesar das grades
“Para saltar de páraquedas, teria que ser de um prédio mais alto”. A frase que encerra Corpo delito (2017), em um diálogo entre os dois personagens principais, parece metaforizar os sentidos de liberdade e reinserção social abordados pelo filme. E, …
Amar não é um gesto leviano ou carta-resposta a Marcelo Ikeda
Para mim a perda política é antes de tudo a perda de si, a perda de sua cólera assim como a de sua doçura, a perda de seu ódio, de sua faculdade de odiar assim como a de sua faculdade …
“Subybaya” e a autossuficiência no cinema
“Somos hoje uma indústria sem chaminés, embora se fume muitos charutos”. (Jairo Ferreira). Construir um filme que se pretende contestador e autossuficiente é assumir para si o conservadorismo do mundo. No regime de imagens e política contemporânea, a lógica é …
Caminhar, persistir, acreditar: “A canção do asfalto”, “Restos”, “Estado itinerante” e a opressão do urbano
Estar no espaço urbano é estar confinado – e estar em trânsito. Em A canção do asfalto (2016), de Pedro Giongo, Restos (2016), de Renato Gaiarsa e Estado itinerante (2016), de Ana Carolina Soares, o mundo das cidades oprime, ao …
“Um filme de cinema” e a realidade fabulada
O cinema surge como escrita da luz. Nasce pendular entre dois movimentos: o avançar das descobertas óticas e a vontade de fazer ver a partir de invenções. Do gesto dos irmãos Lumière em registrar planos fixos e, por meio disso, …